Segunda-feira, 18 de Janeiro de 2010

São diversos os argumentos a favor do Acordo Ortográfico de 1990 (AO 90), mas todos partilham uma característica comum: são rebatíveis, quer no plano retórico, quando de retórica se alimentam, quer no plano factual, quando de factos alheios à realidade se servem. No plano técnico, continuamos todos à espera, uns impávidos, alguns serenos e outros nem uma coisa nem outra, que se rebata o irrebatível e se proponha o princípio revolucionário, com bases de sustentação, aniquilador de toda a doutrina em matéria ortográfica e de todos os pareceres fundamentados, escalpelizadores deste AO 90. Escalpelizadores e reprovadores, sublinhe-se. Sentados, continuaremos todos à espera.

 

Nem a Einstein foi dado o impróprio privilégio de ver teorias não provadas serem gratuitamente abraçadas e directamente vertidas em texto legislativo. Já agora, nem ao LNEC. Einstein, para provar que Newton estava errado, teve de aguardar por um eclipse solar. O LNEC, para ver conclusões suas transformadas em lei (refiro-me ao relatório sobre o novo aeroporto de Lisboa), teve de levar a cabo estudos. Quanto aos autores do AO 90, não precisam estes da teoria sancionada nem de estudos, servindo-se do eclipse científico. Felizmente, para todos nós, a Física vale-se exclusivamente de factos comprováveis e a quem avalia aeroportos e pontes não basta tecer uma avaliação subjectiva, devendo apresentar argumentação tecnicamente válida. A Linguística também tem factos comprováveis e comprovados para apresentar, mas já todos percebemos que há ciências mais iguais do que outras.

 

Um argumento factual, que eu julgara definitivamente afastado da argumentação pró-AO 90, porque medularmente falso, adrede ligeiro e notoriamente avulso, é o da ortografia «excludente». Já alhures tive oportunidade de rebater este argumento, perante o Sr. Embaixador Lauro Moreira. Devo repetir-me, aqui e agora, perante a incrível frase de José Mário Costa «Há toda a diferença entre uma língua, a nossa, com duas ortografias oficiais (repito: ortografias oficiais), antagónicas e excludentes entre si, e o inglês» (Público, 12/01/2010).

 

O princípio «excludente» carece de explicação e passo a explicá-lo. «Excludente», na argumentação pró-AO 90, significa que uma criança brasileira reprovará numa escola portuguesa se utilizar a norma ortográfica do Português do Brasil e que uma criança portuguesa reprovará numa escola brasileira se utilizar a norma ortográfica do Português europeu. Pretendem os defensores do AO 90 que este quadro se alterará com a aplicação do AO 90. Nada de mais falso.

 

Se uma criança portuguesa escrevesse numa redacção a improvável frase: «Após o doutoramento do meu pai, comecei a sentir-me afectado», não creio que, numa escola brasileira, se concentrassem tanto no c de «afectado», mas antes se preocupassem com o «doutoramento» que deveria ser «doutorado», com o «do meu pai» que se imporia ser «de meu pai» e com o «a sentir-me» no lugar de «me sentindo», ou seja: «Após o doutorado de meu pai, comecei me sentindo afetado». Poderíamos então, à ortografia «excludente», acrescentar a morfossintaxe e o léxico «excludentes». Mas não nos centremos na subjacente ideia de "unificação da língua portuguesa", pois de ortografia aqui se trata.

 

Vamos aos factos. Segundo José Mário Costa, a ortografia «excludente» não se aplica ao Inglês. Limito-me, como matéria de séria reflexão, a deixar duas notas sobre a redacção em Inglês, a nível académico: uma da Universidade de Oxford (Reino Unido) e outra da Universidade de Stanford (EUA), para que as coisas surjam como são e não como se pensa que poderiam ser.

 

A primeira distingue um «não» em maiúsculas ("NOT") relativamente ao putativo uso da grafia consuetudinária do Inglês dos EUA («Use British English rather than American English, e.g.: towards; amid; while; NOT toward; amidst; whilst») (1) e a segunda, em caso de dúvida, aconselha um dicionário americano e não um britânico («Please use American spelling. If unsure, please consult Webster´s Tenth New Collegiate Dictionary and use the first entry of spelling») (2). Posso voltar a este argumento, mas penso que ficámos esclarecidos.

 

Acresce ainda não poder esta matéria ser «arrumada na prateleira da história» (José Mário Costa, Público, 12/01/2010), considerando a relevância dos argumentos por mim e por outros apresentados. Arrumam-se argumentos, após dissecados e determinada a sua improcedência. Quando não, a sua relevância mantém-se. Pelo contrário, faltam aos argumentos do AO 90 estudos que os sustentem, tornando-os numa espécie de ornitorrinco, um enigma na classificação, um desafio semiótico. As conclusões do AO 90 foram traçadas, quer numa bissectriz contrária à doutrina, quer numa trissectriz que ignora a realidade. A propósito, «bissectriz», segundo o AO 90, passa a «bissetriz», mantendo-se, contudo, «trissectriz». Porquê? Perguntai aos autores do AO 90, que assim decidem em Vocabulário, ou olhai os lírios do campo e obtereis a mesma resposta.

 

O AO 90 limita-se a ignorar toda a doutrina, pretendendo-se parecer, mas sem método visível para sequer o parecer. Ao contrário do ornitorrinco, que tem acção benigna no meio que o envolve, o AO 90 apenas se distingue por ser diferente.

1) http://www.ox.ac.uk/branding_toolkit/writing_and_style_guide/spelling.html

2) http://ual.stanford.edu/pdf/pwr_boothestyleguide.pdf


palavras-chave:

publicado por fmvalada às 23:44
Quinta-feira, 07 de Janeiro de 2010

O debate em redor do Acordo Ortográfico voltou à estaca zero, com o artigo de José Mário Costa, no Público de 4/1/2009.* No artigo, intitulado «Alguns pontos nos ii sobre o Acordo Ortográfico», nem se vislumbra qualquer referência aos vícios do Acordo Ortográfico de 1990 (AO 90), assinalados em pareceres técnicos e em comentários razoados, nem se manifestam as razões linguísticas que demonstram a inaptidão do AO 90 para um sistema de escrita de base alfabética, nem se atalha o facto de o AO 90 ter passado incólume ao crivo especializado e a estudos e avaliações, ao contrário do que sucede com qualquer projecto com incidência no quotidiano.

 

José Mário Costa apresenta a questão da dupla grafia, ignorando a questão central. Em nenhuma ortografia sucede a facultatividade irrestrita prescrita pelo AO 90. A dupla grafia que José Mário Costa apresenta para o inglês não se aplica às letra e forma do AO 90. Os dicionários ingleses (por exemplo, o New Oxford Dictionary of English de 1998) sublinham, para theatre, plough ou sceptic, as grafias theater, plow e skeptic, com a menção explícita "US". Em alemão, em contextos específicos, que não vou explanar, para não maçar aqui os leitores, o uso do Eszett (ß) não se aplica à Suíça, sendo esse facto explicitamente mencionado no texto do Acordo de 1996, determinando-se que na Suíça se pode escrever sempre "ss".

 

Pelo contrário, se José Mário Costa conferir o VOLP da Porto Editora, verá que carácter se grafa caráter e/ou carácter, constituindo duas grafias para o mesmo significante na mesma norma culta, ao contrário de grafias "duplas" que Malaca Casteleiro apresenta, à laia de justificação, no Preâmbulo do VOLP da Porto Editora, como arena e areia. Qualquer leigo sabe que areia e arena não são a mesma palavra, pois numa arena há areia e areia pode haver noutros locais que não numa arena. O VOLP da Porto Editora, da responsabilidade de Malaca Casteleiro (igualmente co-autor e negociador do AO 90), pretende aplicar-se exclusivamente à norma do português europeu. O desastre que se segue à aplicação do AO 90 é evidente.

 

Se acrescentarmos o facto de no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea (2001), organizado por Malaca Casteleiro, o segundo c de carácter se pronunciar, não havendo excepção a esta regra, o desastre é total. Se recordarmos que se prepara a coexistência de três Vocabulários para a norma do português europeu com o VOLP da Academia Brasileira de Letras, o desastre seria risível, não fosse real.

Erro crasso, porque prenhe de subjectividade, é o comentário de José Mário Costa: "Quem está contra o Acordo Ortográfico, este ou qualquer outro, estará até ao fim dos seus dias". Eu, autor de livro contra o AO 90, sou favorável a uma reforma ortográfica (sob forma de acordo ou sob outra forma), desde que se respeitem os princípios de uma ortografia de base alfabética e que se não limite a sua base teórica a um "critério de pronúncia" vago, errado e ambíguo.

 

Sou favorável ao Acordo Ortográfico de 1945, com críticas a opções de pormenor, mas não aos seus princípios gerais. Não sou favorável a um Acordo publicitado como "uma das medidas mais urgentes para a unificação da língua portuguesa", como afirmou Solange Parvaux, em 2004, na Fundação Calouste Gulbenkian , esquecendo que as divergências morfossintácticas e lexicais impedem tal projecto, no mínimo, megalómano. Sou favorável a uma reforma ortográfica que dignifique a minha língua e não a qualquer documento nem a qualquer processo que se baseie exclusivamente em relações de poder, em questões que envolvam "locomotivas" e "inevitabilidade", quando as razões da ortografia são linguísticas, devendo estas ser escutadas e analisadas por quem de direito e não ofuscadas por luzes que do rigor há muito se afastaram.

 

Adenda: Preparava-me para enviar este artigo, quando me deparei com a "Heterodoxia ortográfica" do professor Vital Moreira (PÚBLICO, 5/1/2010). Permito-me sublinhar cinco pomos de discórdia:

 

1 - A "confusão duradoura em matéria ortográfica" aplica-se, não à louvável iniciativa da Direcção do Público, mas a este AO 90, como acabei de demonstrar ;

 

2 - As "intensas discussões académicas e políticas" aplicam-se, não ao AO 90, mas ao seu antecessor, o AO 86. Se a existência de uma discussão legitima decisões contrárias ao resultado dessa discussão, deveremos todos rever o conceito "discussão";

 

3 - Quanto à "convergência ortográfica" e à "uniformidade fonética", recordem-se dois pontos cruciais: a) Este AO 90 promove grafias diferentes na mesma norma culta, à custa de um "critério de pronúncia", arbitrário por natureza; b) Este AO 90 promove a incoerência gráfica entre formas afins, a opacidade crescente e a ambiguidade semântica;

 

4 - A questão essencial continua a escapar a muitos espíritos, mesmo aos reconhecidos pela sua argúcia: o AO 90 é um mau instrumento linguístico, com consequências negativas para o futuro;

 

5 - Uma última nota, relativamente ao "conservadorismo ortográfico". Em qualquer Ciência, o conservadorismo deve pautar-se pela presença em termos de método, para que o objecto definido (em Linguística, por natureza, mutável) possa ser descrito com exactidão e sobre ele se possa prescrever com rigor. Não pode é a disciplina potenciar mudanças no objecto, através da perversão do método. Quando coacção se tornar homófona de coação ou sempre que se duvidar se para é verbo ou preposição, os nocivos efeitos deste AO 90 começarão a reflectir-se no quotidiano.

 

A tomada de posição por parte da Direcção do PÚBLICO é notável, pois mantém a aplicação de um instrumento ortográfico que respeita os princípios de uma escrita de base alfabética, não cedendo a outro (o AO 90), que tem muito de pseudofonético e pouco de ortográfico.

 

*4/1/2010


palavras-chave:

publicado por fmvalada às 23:36
Terça-feira, 05 de Janeiro de 2010

"Os ii do Acordo Ortográfico, ponto por ponto", PÚBLICO, 7/1/2010
"O Acordo Ortográfico, o 'excludente' e o ornitorrinco", PÚBLICO, 18/01/2010
"Um Acordo de Corda", PÚBLICO, 26/2/2010
"O Acordo Ortográfico e o Sistema Solar", PÚBLICO, 03/04/2010
"A Evanildo Bechara, gramático e filólogo", PÚBLICO, 28/6/2010
"Acordo Ortográfico: o derradeiro recurso", PÚBLICO, 22/08/2010
"O Acordo Ortográfico e o ouvido de Beethoven", PÚBLICO, 20/12/2010
"Os lemas em '-acção' e a base IV do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990", Diacrítica - Série Ciências da Linguagem, n.º 24/1, pp. 97-108. Braga: Universidade do Minho.
"O acordo ortográfico e o direito dos comboios à greve", PÚBLICO, 19/6/2011
"Pela suspensão imediata do Acordo Ortográfico Carta aberta ao Primeiro-Ministro, ao Ministro dos Negócios Estrangeiros e ao Ministro da Educação", PÚBLICO, 25/6/2011
"Enta à Presidência e singularidades de uso, PÚBLICO, 6/7/2011
"Aspectos & aspetos: a simultaneidade da discrepância, PÚBLICO, 2/8/2011
"Os bicos-de-papagaio do Acordo Ortográfico, PÚBLICO, 5/9/2011
"A anunciada revisão do Acordo Ortográfico, PÚBLICO, 24/11/2011
"21 anos, 21 bases", SOL, 17/2/2012
"Dermatologia e resistência silenciosa", PÚBLICO, 29/02/2012
“Novo Acordo Ortográfico é uma agressão enquanto leitor”, Grande Porto, 2/3/2012
“O Acordo Ortográfico é um disparate científico” , O DIABO, 6/3/2012
"Os nomes dos meses: Abril na CPLP", PÚBLICO, 30/4/2012
"A persistência do caos ortográfico: a APP", PÚBLICO, 26/6/2012
"Um pouco mais de rigor, sff", PÚBLICO, 11/8/2012
"Contra fatos: os argumentos", PÚBLICO, 13/11/2012
"O sector do Lince, a co-adopção e uma coisa insustentável", PÚBLICO, 14/7/2013
"A imaculada concessão", PÚBLICO, 19/02/2014
"Acordo Ortográfico de 1990: o regresso das falácias convenientes", PÚBLICO, 15/03/2015



publicado por fmvalada às 01:10
Conjunto de artigos sobre um instrumento político de má qualidade técnica.
ligações
ligações
ligações
pesquisar neste blogue
 
subscrever feeds
blogs SAPO