Sexta-feira, 26 de Fevereiro de 2010


“Faz sentido a comunicação social portuguesa adoptar o Acordo Ortográfico. O Expresso vai, seguramente, adoptá-lo e só ainda não o fez porque temos alguns problemas técnicos relacionados com o sistema editorial e com o corretor ortográfico que estamos neste momento a tentar superar”
Henrique Monteiro, Director do Expresso, in PÚBLICO online, 30.01.2010*


Imaginemos que, do meu ponto de vista, a construção de uma ponte entre o Porto e Fortaleza, com quatro variantes (Bissau, Cidade da Praia, S. Tomé e Luanda), constituía um projecto positivo para a CPLP atlântica. Partamos agora do princípio que todos os governos da CPLP atlântica partilhavam o meu ponto de vista. Pensemos agora que se incumbia a tarefa a um gabinete de engenharia civil e que este apresentava o Projecto da Ponte de Corda. O meu ponto de vista manter-se-ia válido, eu continuaria favorável a uma ponte. No entanto, consciente do material proposto para a sua execução, tornar-me-ia opositor de tal empresa e jamais me veriam a passar na ponte de corda. Entre um artigo indefinido “uma” e um definido “a”, vai uma distância entre o Porto e Fortaleza.

 

Desde há muitos anos que a Direcção do Expresso é defensora de qualquer acordo ortográfico, seja ele de corda, de betão, de aço ou alumínio. Esta posição teve o seu remate final numa “Nota da Direcção”, ** após ficarmos a saber que cada jornalista da Agência Lusa "esteve um dia a reflectir” sobre questões tão cativantes como a filosofia geral do Acordo. Claramente se percebe que ao argumento principal do Expresso (“Do nosso ponto de vista, as novas normas não afectam - antes contribuem - para a clarificação da língua portuguesa.”) falta o nexo de causalidade: de que forma, como, de que modo? Se eu disser que uma ponte de corda contribui para unir os falantes atlânticos da língua portuguesa, tenho de apresentar os motivos da minha afirmação. Dizer “do nosso ponto de vista”, não chega.

 

Ao Expresso falta perceber que, ao defender um Acordo de corda em vez de (no minimo) betão, fragiliza a sua posição. Não se conhecem os estudos linguísticos que validam o segundo argumento (“não consideramos a ideia de que a ortografia afecta a fonética, mas sim o contrário”). Uma tese deve sustentar-se em provas e, salvo me tenha escapado algum dos princípios ortográficos que grassam em textos técnicos sobre a matéria, não conheço qualquer tese fundamentada que determine assertivamente ser a ortografia afectada pela fonética e não o contrário. Peço encarecidamente à Direcção do Expresso que me faculte tais referências, pois, das duas uma: ou não existem ou, se existem, não as conheço.

 

Aconselho a leitura das páginas 64 a 76 do livro Fonética do Português Europeu (Guimarães Editores, 2009), do professor António Emiliano, para que no Expresso se perceba a diferença entre um fone e um fonema, uma letra e um grafema. Recordo igualmente as recentes palavras de Maria Helena Mira Mateus, num parecer do ILTEC para o Instituto Camões: “a ortografia portuguesa é fonológica e etimológica, e não fonética”.***

 

O terceiro argumento do Expresso é demolidor para o próprio Expresso: “O facto de a partir de 1911 a palavra phleugma se passar a escrever fleugma e, já depois, fleuma não trouxe alterações ao modo como é pronunciada. Assim como pharmacia ou philosophia”). Entre pharmacia e farmácia não se percebe se o Expresso se refere ao ph que passou a f ou ao a que passou a ter acento. O ph e o f não poderiam sofrer ambiguidades fonéticas, pois ambos os grafemas se realizam foneticamente da mesma forma. Quanto ao acento que o a ganhou em 1911, nada tem a ver com as opções do Acordo que o Expresso se prepara para aplicar: basta ver que pára perde o acento. Entre a farmácia de 1911 e o para de 1990, temos a diferença entre uma reforma ortográfica de betão e um acordo ortográfico de corda e a prova provada de que, quando matérias técnicas são exclusivamente defendidas com argumentos políticos, o desastre é inevitável.

 

A propósito da regionalização, afirma o professor Freitas do Amaral, no Curso de Direito Administrativo: “Pior do que não ter a regionalização será fazer uma má regionalização, isto é, uma regionalização mal estudada, mal concebida ou mal executada.” Recentemente, na Cimeira de Copenhaga, o presidente do Brasil, Lula da Silva, afirmava “o que nós não estamos de acordo é que as figuras mais importantes do planeta Terra assinem qualquer documento, para dizer que nós assinamos documento”.

 

O Acordo que o Expresso, a Lusa e o Diário Económico se preparam para aplicar foi mal estudado, mal concebido e, por conseguinte, será mal executado. É pena que, em vez de promoverem uma reforma da ortografia bem planeada, adequadamente concebida e sustentavelmente executada, o Expresso, a Lusa e o Diário Económico se preparem para aplicar “qualquer documento”. Em vez de um acordo de betão, aço ou alumínio, preferem um Acordo de corda. E a corda lá acabará por rebentar. Inevitavelmente. Para mal de todos nós.

 

Adenda: “O país não pode fechar-se em si mesmo. Não faz sentido vivermos de costas para o que é hoje o centro da Lusofonia, que é o Brasil”. Esta frase de António Costa, do Diário Económico, demonstra bem que a subserviência ultrapassa qualquer resolução técnica. Julgávamos nós que a CPLP era uma comunidade de primus inter pares. **** Segundo o Diário Económico, afinal, estávamos todos completamente enganados. Enquanto o Expresso faz um esforço técnico, ainda que incipiente, o Diário Económico vai ao cerne da questão.

 

* http://www.publico.clix.pt/Media/expresso-e-diario-economico-adoptam-novo-acordo-ortografico-nos-proximos-meses_1420561

** http://aeiou.expresso.pt/gen.pl?p=stories&op=view&fokey=ex.stories/560811

***http://www2.fcsh.unl.pt/docentes/aemiliano/AOLP90/ILTEC2005.pdf

**** ver correcção:


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publicado por fmvalada às 23:50
Conjunto de artigos sobre um instrumento político de má qualidade técnica.
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