Segunda-feira, 28 de Junho de 2010

 

"A crítica em Portugal é a de que os brasileiros estão mais interessados e se acham mais ávidos porque os portugueses vão ter que alterar mais do que os brasileiros. Não é verdade. Quem diz isso não leu o acordo"

Evanildo Bechara, entrevistado por Fabiana Godoy, PÚBLICO, 10/6/2010

 

Em entrevista ao PÚBLICO (10/6/2010), Evanildo Bechara, “considerado o pai do acordo ortográfico no Brasil”, produz afirmações graves, como a que surge em epígrafe. Nada de surpreendente, vindo de quem, em declarações à Folha de S.Paulo (6/8/2009), chamou “balela” à crítica fundamentada da falta do vocabulário ortográfico comum, previsto no artigo 2.º do Acordo Ortográfico de 1990 (AO 90). Esse vocabulário deveria ter sido elaborado até um ano antes da entrada em vigor do AO 90, conforme então prevista no artigo 3.º. As datas são claras e não requerem relevante formação jurídica para a sua interpretação: 1 de Janeiro de 1993 para o vocabulário e 1 de Janeiro de 1994 para a entrada em vigor. Claríssimas como água. O Acordo do Segundo Protocolo Modificativo ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa dá uma nova redacção ao artigo 3.º, relativamente à entrada em vigor do AO 90, mas o artigo 2.º mantém-se inalterado.

 

De um gramático e filólogo, apenas espero uma resposta esclarecedora, académica e científica e não uma “balela” para atirar a conversa para canto ou para escanteio, dependendo da norma escolhida. De Bechara, que acuso publicamente de contribuir para a destruição da norma ortográfica do português europeu, exijo uma resposta digna de um académico (com explicações, remissões e referências) e não que despache o assunto como se lhe estivessem a perguntar as horas e não tivesse nem tempo, nem paciência, nem relógio para responder.

 

Mas concentremo-nos na recente entrevista ao PÚBLICO. Afirma Bechara que quem diz terem os portugueses “que alterar mais do que os brasileiros (...) não leu o acordo”. Quem nitidamente não leu o AO 90, nomeadamente a Nota Explicativa, quando avança percentagens que não requerem formação em estatística para serem percebidas, foi Bechara. Não repetirei argumentos sobre cálculos, já alhures desmascarados e inclusive publicamente comprovada a sua inexactidão por responsáveis pela execução técnica do AO 90. Contudo, para que não restem dúvidas, transcrevo, na simplicidade de uma frase, informação ignorada ou omitida por Bechara e veiculada pelo Ministério da Educação do Brasil: “A unificação da ortografia acarretará alterações na forma de escrita em 1,6% do vocabulário usado em Portugal e de 0,5%, no Brasil”.

 

Um académico desactualizado e desinformado é um académico que transmite informações erradas. Citá-lo em contexto académico constitui um exercício extremamente perigoso. Não recomendo. Bechara refere, entre os “pontos em que havia desacordo”, a existência “em Portugal” [sic] de “consoantes que não se articulam, como por exemplo ‘director’”. Bechara deveria saber que há mais vida para além da mera articulação. Bechara não leu Maria Raquel Delgado Martins, quando refere, em Ouvir Falar – Introdução à Fonética do Português, entre as excepções à regra de redução vocálica, as marcadas ortograficamente por acento agudo ou “por uma consoante muda etimológica, como em baptismo ou director”. Director, professor Bechara. Director!

 

Bechara não leu Ivo Castro e Inês Duarte, em A Demanda da Ortografia Portuguesa, quando realçam que no português europeu “a presença de uma consoante etimológica constitui (...) uma instrução que indica que se está perante um caso excepcional em que o timbre da vogal não é alterado”, nem ouviu Antônio Houaiss, no programa Roda Viva, da TV Cultura, em 10/12/1990, quando disse: “[esse c] em Portugal, ele tem valor diacrítico”.

 

Diacrítico, para quem não souber, vem do grego διακρητικός e significa, entre outras coisas, “sinal gráfico que permite distinguir a modulação das vogais”, segundo o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, organizado por João Malaca Casteleiro e prestes a desactualizar-se, por iniciativa e publicidade do seu organizador, apesar de a 1.ª edição (2001) ter menos de dez anos de idade. Se Fabiana Godoy me tivesse perguntado acerca do “gasto desnecessário de dinheiro” e da “imposição das academias”, teria sido esta a minha resposta.

 

Com uma aplicação do AO 90, a norma ortográfica do português europeu finda, como diria o João da Ega, por dispersão e insensivelmente. As conclusões de Martins, Castro, Duarte e Houaiss deixarão de ser verdade, não porque haja qualquer erro científico nas suas conclusões, antes pelo contrário, mas devido a um processo puramente administrativo e absolutamente anticientífico. Como se Vénus pudesse passar a ter uma rotação no mesmo sentido da rotação da Terra apenas porque a administração Obama assim determinasse e a NASA em conformidade obedecesse.

 

Bechara pergunta: “Como é que uma criança que está começando a escrever em Português vai escrever ‘Egipto’ se ela não ouve este p?”. Ficar-me-ia mal aconselhar a leitura de livros e artigos científicos sobre o tema, a um académico que os deveria conhecer melhor do que eu. Mas como é evidente que não os leu, recomendo vivamente a sua leitura. Agora, pergunto eu: como é que uma criança que está a começar a escrever em português vai escrever “homem” se ela não ouve este h e como é que essa criança vai diferenciar o (cito da Base V do AO 90) “emprego do e e do i, assim como o do o e do u, em sílaba átona”, como em “cardeal” e “cordial”, “mágoa” e “tábua”? Perdei meia hora do vosso precioso tempo, professor Bechara, e respondei-me a estas dúvidas dilacerantes. Embora as respostas se encontrem nas Bases II e V do AO 90, por vós aparentemente desconhecidas (“por força da etimologia”, “pela etimologia e por particularidades da história das palavras”, por “condições etimológicas e histórico-fonéticas”), podeis dispor de argumentos adicionais.

 

Respondei-me, professor Bechara, com argumentos científicos, daqueles que surgem em livros, teses, artigos, aulas, debates e seminários. Mas não chameis “balela” a coisas sérias e que dizem respeito a todos os que escrevem e lêem. Se não conseguis defender o AO 90 na vossa área de conhecimento, não tenteis desviar a conversa para foros de indelicadeza, dizendo que “os portugueses sempre se consideraram os donos da língua”. De outro modo, devo concluir que “balela” é todo o processo do AO 90. Para bem da nossa língua, espero estar enganado. Contudo, lamentavelmente, quer-me parecer que não estou.


palavras-chave:

publicado por fmvalada às 21:51
Sábado, 03 de Abril de 2010

 


“O Sol nasce e o Sol põe-se e visa o ponto donde volta a despontar”
Eclesiastes 1:5


“Não faz sentido vivermos de costas para o que é hoje o centro da lusofonia, que é o Brasil”
António Costa, director do Diário Económico, in PÚBLICO online, 30.01.2010

 

A segunda frase em epígrafe pressupõe uma modificação conceptual. Enquanto nos princípios da CPLP se podem ler preceitos como “igualdade soberana dos Estados membros” e “reciprocidade de tratamento” e nos seus objectivos se inclui “a materialização de projectos de promoção e difusão da língua portuguesa”, o director do Diário Económico preconiza uma abordagem completamente diferente. Michel Foucault considerou estas mudanças conceptuais como “cortes epistemológicos”. Na linguagem de Foucault, este conceito corresponde a uma mudança de paradigma, com consequências em todas as áreas do saber.

 

No século XVI, a obra de Copérnico De revolutionibus orbium coelestium propunha a teoria heliocêntrica, vindo a provocar uma alteração nos valores até então consagrados e desferindo um golpe misericordioso na concepção geocêntrica, exemplificada na minha referência ao Eclesiastes. Em suma, com Copérnico, a Terra deixava de ser o centro das atenções, passando esta e todo um conjunto de planetas a descrever uma órbita em redor da fonte da vida: o Sol. Caso tenham reparado, a teoria sobreviveu a Copérnico, pois a sua veracidade é mais do que comprovável. Apesar de me ter convencido, há quatro anos, durante um nascer do Sol no Deserto do Mojave, de que o o movimento de translação era do Sol relativamente à Terra e não o contrário, a minha convicção desse momento perderá sempre para a crua realidade copernicana, kepleriana e galileana. É certo e sabido, desde Galileu: eppur si muove! Contudo, António Costa convida-nos a um regresso ao passado, a um retrocesso epistemológico e a um novo tipo de centrismo: o jupitercentrismo linguístico.


Não concordando com a despromoção de Plutão a “anão”, justificada por a sua massa ser inferior, por exemplo, à massa da nossa Lua, devo realçar que esta despromoção me facilita os cálculos para o tema em apreço. O Sistema Solar é agora composto por oito planetas. A CPLP é composta por oito Estados-membros de pleno direito. A conhecida disposição dos oito planetas seria impossível sem o Sol e a CPLP não existiria sem a língua portuguesa. Em termos proporcionais, tendo em conta uma relação entre massa de corpos celestes e área ou dimensão populacional de países, Júpiter equivalerá ao Brasil e Urano a Portugal.

 

Pense-se no Sistema Solar e na posição de Júpiter relativamente ao Sol. E agora imagine-se uma grande revolução no Universo, em que o Sol e Júpiter trocam de posição. O facto de o Sistema deixar de ser Solar, para passar a Jupiteriano, é uma preocupação secundária. Não é o nome que aqui está em causa, nem a confusão orbital, nem a impossibilidade de o Sol poder ser capturado pelo campo gravitacional de Júpiter, nem a possibilidade de tal revolução implicar consequências inimagináveis na estrutura do Universo. No entanto, a improbabilidade de um astro com massa cerca de 333 mil vezes superior à da Terra girar em torno desta a uma distância média de cerca de 150 milhões de quilómetros foi uma verdade indesmentível. Até Copérnico.


Subitamente, eis que a Ciência se vê ignorada e ultrapassada pela opinião não sustentada. A partir do momento em que pensarmos a língua exclusivamente em termos de dimensão populacional, área territorial ou poder económico, abriremos as portas para a justificação da adopção de qualquer instrumento técnico, independentemente da sua péssima qualidade. Justificar-se-á, a esta luz e só a esta luz, o injustificável Acordo Ortográfico de 1990.

 

Não deve a língua portuguesa girar nem em redor do Brasil, nem de Portugal, nem de qualquer país. A língua portuguesa deve estar no centro das preocupações e é em torno dela que os argumentos devem gravitar. As mudanças em aspectos com ela relacionados podem ser de iniciativa política, mas a sua promoção deve ser corroborada por estudos científicos e não apoiada em argumentos que voguem pela arbitrariedade, pela discricionariedade e pela subjectividade. Caso contrário, a língua deixará de ser veículo de comunicação de todos, para passar a mais uma carta no baralho de um jogo dominado por um, mas em que todos saem perdedores; em vez de impulso civilizacional, passará a instrumento individual, quando constitui um património colectivo.

 

Considero nefasta e, em última análise, perniciosa uma mudança de paradigma, sem se preverem as consequências do corte epistemológico. Para se confirmar a validade da minha consideração, convido à leitura do Acordo Ortográfico de 1990 e dos comentários que o justificam e o elogiam. Perceber-se-á rapidamente que a defesa deste péssimo instrumento corresponde apenas a um inusitado e pouco recomendável regresso à Idade Média.


Adenda: Na minha crónica anterior (26/2/2010), houve uma nódoa no pano, um primus que caiu pessimamente antes do inter pares. Culpa minha, minha enorme culpa. Agradeço o reparo de Daniel Jesus, meu estimado amigo, colega e leitor. Agradecendo e corrigindo: “Julgávamos nós que a CPLP era uma comunidade de relações interpares”. O mundo moderno é moldado assim: quem erra deve analisar, corrigir e agradecer a correcção. Talvez não fosse má ideia os autores do Acordo Ortográfico de 1990 adoptarem este tipo de comportamento. Dispensa-se o agradecimento, mas a análise e as correcções são indispensáveis.


palavras-chave:

publicado por fmvalada às 23:58
Sexta-feira, 26 de Fevereiro de 2010


“Faz sentido a comunicação social portuguesa adoptar o Acordo Ortográfico. O Expresso vai, seguramente, adoptá-lo e só ainda não o fez porque temos alguns problemas técnicos relacionados com o sistema editorial e com o corretor ortográfico que estamos neste momento a tentar superar”
Henrique Monteiro, Director do Expresso, in PÚBLICO online, 30.01.2010*


Imaginemos que, do meu ponto de vista, a construção de uma ponte entre o Porto e Fortaleza, com quatro variantes (Bissau, Cidade da Praia, S. Tomé e Luanda), constituía um projecto positivo para a CPLP atlântica. Partamos agora do princípio que todos os governos da CPLP atlântica partilhavam o meu ponto de vista. Pensemos agora que se incumbia a tarefa a um gabinete de engenharia civil e que este apresentava o Projecto da Ponte de Corda. O meu ponto de vista manter-se-ia válido, eu continuaria favorável a uma ponte. No entanto, consciente do material proposto para a sua execução, tornar-me-ia opositor de tal empresa e jamais me veriam a passar na ponte de corda. Entre um artigo indefinido “uma” e um definido “a”, vai uma distância entre o Porto e Fortaleza.

 

Desde há muitos anos que a Direcção do Expresso é defensora de qualquer acordo ortográfico, seja ele de corda, de betão, de aço ou alumínio. Esta posição teve o seu remate final numa “Nota da Direcção”, ** após ficarmos a saber que cada jornalista da Agência Lusa "esteve um dia a reflectir” sobre questões tão cativantes como a filosofia geral do Acordo. Claramente se percebe que ao argumento principal do Expresso (“Do nosso ponto de vista, as novas normas não afectam - antes contribuem - para a clarificação da língua portuguesa.”) falta o nexo de causalidade: de que forma, como, de que modo? Se eu disser que uma ponte de corda contribui para unir os falantes atlânticos da língua portuguesa, tenho de apresentar os motivos da minha afirmação. Dizer “do nosso ponto de vista”, não chega.

 

Ao Expresso falta perceber que, ao defender um Acordo de corda em vez de (no minimo) betão, fragiliza a sua posição. Não se conhecem os estudos linguísticos que validam o segundo argumento (“não consideramos a ideia de que a ortografia afecta a fonética, mas sim o contrário”). Uma tese deve sustentar-se em provas e, salvo me tenha escapado algum dos princípios ortográficos que grassam em textos técnicos sobre a matéria, não conheço qualquer tese fundamentada que determine assertivamente ser a ortografia afectada pela fonética e não o contrário. Peço encarecidamente à Direcção do Expresso que me faculte tais referências, pois, das duas uma: ou não existem ou, se existem, não as conheço.

 

Aconselho a leitura das páginas 64 a 76 do livro Fonética do Português Europeu (Guimarães Editores, 2009), do professor António Emiliano, para que no Expresso se perceba a diferença entre um fone e um fonema, uma letra e um grafema. Recordo igualmente as recentes palavras de Maria Helena Mira Mateus, num parecer do ILTEC para o Instituto Camões: “a ortografia portuguesa é fonológica e etimológica, e não fonética”.***

 

O terceiro argumento do Expresso é demolidor para o próprio Expresso: “O facto de a partir de 1911 a palavra phleugma se passar a escrever fleugma e, já depois, fleuma não trouxe alterações ao modo como é pronunciada. Assim como pharmacia ou philosophia”). Entre pharmacia e farmácia não se percebe se o Expresso se refere ao ph que passou a f ou ao a que passou a ter acento. O ph e o f não poderiam sofrer ambiguidades fonéticas, pois ambos os grafemas se realizam foneticamente da mesma forma. Quanto ao acento que o a ganhou em 1911, nada tem a ver com as opções do Acordo que o Expresso se prepara para aplicar: basta ver que pára perde o acento. Entre a farmácia de 1911 e o para de 1990, temos a diferença entre uma reforma ortográfica de betão e um acordo ortográfico de corda e a prova provada de que, quando matérias técnicas são exclusivamente defendidas com argumentos políticos, o desastre é inevitável.

 

A propósito da regionalização, afirma o professor Freitas do Amaral, no Curso de Direito Administrativo: “Pior do que não ter a regionalização será fazer uma má regionalização, isto é, uma regionalização mal estudada, mal concebida ou mal executada.” Recentemente, na Cimeira de Copenhaga, o presidente do Brasil, Lula da Silva, afirmava “o que nós não estamos de acordo é que as figuras mais importantes do planeta Terra assinem qualquer documento, para dizer que nós assinamos documento”.

 

O Acordo que o Expresso, a Lusa e o Diário Económico se preparam para aplicar foi mal estudado, mal concebido e, por conseguinte, será mal executado. É pena que, em vez de promoverem uma reforma da ortografia bem planeada, adequadamente concebida e sustentavelmente executada, o Expresso, a Lusa e o Diário Económico se preparem para aplicar “qualquer documento”. Em vez de um acordo de betão, aço ou alumínio, preferem um Acordo de corda. E a corda lá acabará por rebentar. Inevitavelmente. Para mal de todos nós.

 

Adenda: “O país não pode fechar-se em si mesmo. Não faz sentido vivermos de costas para o que é hoje o centro da Lusofonia, que é o Brasil”. Esta frase de António Costa, do Diário Económico, demonstra bem que a subserviência ultrapassa qualquer resolução técnica. Julgávamos nós que a CPLP era uma comunidade de primus inter pares. **** Segundo o Diário Económico, afinal, estávamos todos completamente enganados. Enquanto o Expresso faz um esforço técnico, ainda que incipiente, o Diário Económico vai ao cerne da questão.

 

* http://www.publico.clix.pt/Media/expresso-e-diario-economico-adoptam-novo-acordo-ortografico-nos-proximos-meses_1420561

** http://aeiou.expresso.pt/gen.pl?p=stories&op=view&fokey=ex.stories/560811

***http://www2.fcsh.unl.pt/docentes/aemiliano/AOLP90/ILTEC2005.pdf

**** ver correcção:


palavras-chave:

publicado por fmvalada às 23:50
Segunda-feira, 18 de Janeiro de 2010

São diversos os argumentos a favor do Acordo Ortográfico de 1990 (AO 90), mas todos partilham uma característica comum: são rebatíveis, quer no plano retórico, quando de retórica se alimentam, quer no plano factual, quando de factos alheios à realidade se servem. No plano técnico, continuamos todos à espera, uns impávidos, alguns serenos e outros nem uma coisa nem outra, que se rebata o irrebatível e se proponha o princípio revolucionário, com bases de sustentação, aniquilador de toda a doutrina em matéria ortográfica e de todos os pareceres fundamentados, escalpelizadores deste AO 90. Escalpelizadores e reprovadores, sublinhe-se. Sentados, continuaremos todos à espera.

 

Nem a Einstein foi dado o impróprio privilégio de ver teorias não provadas serem gratuitamente abraçadas e directamente vertidas em texto legislativo. Já agora, nem ao LNEC. Einstein, para provar que Newton estava errado, teve de aguardar por um eclipse solar. O LNEC, para ver conclusões suas transformadas em lei (refiro-me ao relatório sobre o novo aeroporto de Lisboa), teve de levar a cabo estudos. Quanto aos autores do AO 90, não precisam estes da teoria sancionada nem de estudos, servindo-se do eclipse científico. Felizmente, para todos nós, a Física vale-se exclusivamente de factos comprováveis e a quem avalia aeroportos e pontes não basta tecer uma avaliação subjectiva, devendo apresentar argumentação tecnicamente válida. A Linguística também tem factos comprováveis e comprovados para apresentar, mas já todos percebemos que há ciências mais iguais do que outras.

 

Um argumento factual, que eu julgara definitivamente afastado da argumentação pró-AO 90, porque medularmente falso, adrede ligeiro e notoriamente avulso, é o da ortografia «excludente». Já alhures tive oportunidade de rebater este argumento, perante o Sr. Embaixador Lauro Moreira. Devo repetir-me, aqui e agora, perante a incrível frase de José Mário Costa «Há toda a diferença entre uma língua, a nossa, com duas ortografias oficiais (repito: ortografias oficiais), antagónicas e excludentes entre si, e o inglês» (Público, 12/01/2010).

 

O princípio «excludente» carece de explicação e passo a explicá-lo. «Excludente», na argumentação pró-AO 90, significa que uma criança brasileira reprovará numa escola portuguesa se utilizar a norma ortográfica do Português do Brasil e que uma criança portuguesa reprovará numa escola brasileira se utilizar a norma ortográfica do Português europeu. Pretendem os defensores do AO 90 que este quadro se alterará com a aplicação do AO 90. Nada de mais falso.

 

Se uma criança portuguesa escrevesse numa redacção a improvável frase: «Após o doutoramento do meu pai, comecei a sentir-me afectado», não creio que, numa escola brasileira, se concentrassem tanto no c de «afectado», mas antes se preocupassem com o «doutoramento» que deveria ser «doutorado», com o «do meu pai» que se imporia ser «de meu pai» e com o «a sentir-me» no lugar de «me sentindo», ou seja: «Após o doutorado de meu pai, comecei me sentindo afetado». Poderíamos então, à ortografia «excludente», acrescentar a morfossintaxe e o léxico «excludentes». Mas não nos centremos na subjacente ideia de "unificação da língua portuguesa", pois de ortografia aqui se trata.

 

Vamos aos factos. Segundo José Mário Costa, a ortografia «excludente» não se aplica ao Inglês. Limito-me, como matéria de séria reflexão, a deixar duas notas sobre a redacção em Inglês, a nível académico: uma da Universidade de Oxford (Reino Unido) e outra da Universidade de Stanford (EUA), para que as coisas surjam como são e não como se pensa que poderiam ser.

 

A primeira distingue um «não» em maiúsculas ("NOT") relativamente ao putativo uso da grafia consuetudinária do Inglês dos EUA («Use British English rather than American English, e.g.: towards; amid; while; NOT toward; amidst; whilst») (1) e a segunda, em caso de dúvida, aconselha um dicionário americano e não um britânico («Please use American spelling. If unsure, please consult Webster´s Tenth New Collegiate Dictionary and use the first entry of spelling») (2). Posso voltar a este argumento, mas penso que ficámos esclarecidos.

 

Acresce ainda não poder esta matéria ser «arrumada na prateleira da história» (José Mário Costa, Público, 12/01/2010), considerando a relevância dos argumentos por mim e por outros apresentados. Arrumam-se argumentos, após dissecados e determinada a sua improcedência. Quando não, a sua relevância mantém-se. Pelo contrário, faltam aos argumentos do AO 90 estudos que os sustentem, tornando-os numa espécie de ornitorrinco, um enigma na classificação, um desafio semiótico. As conclusões do AO 90 foram traçadas, quer numa bissectriz contrária à doutrina, quer numa trissectriz que ignora a realidade. A propósito, «bissectriz», segundo o AO 90, passa a «bissetriz», mantendo-se, contudo, «trissectriz». Porquê? Perguntai aos autores do AO 90, que assim decidem em Vocabulário, ou olhai os lírios do campo e obtereis a mesma resposta.

 

O AO 90 limita-se a ignorar toda a doutrina, pretendendo-se parecer, mas sem método visível para sequer o parecer. Ao contrário do ornitorrinco, que tem acção benigna no meio que o envolve, o AO 90 apenas se distingue por ser diferente.

1) http://www.ox.ac.uk/branding_toolkit/writing_and_style_guide/spelling.html

2) http://ual.stanford.edu/pdf/pwr_boothestyleguide.pdf


palavras-chave:

publicado por fmvalada às 23:44
Quinta-feira, 07 de Janeiro de 2010

O debate em redor do Acordo Ortográfico voltou à estaca zero, com o artigo de José Mário Costa, no Público de 4/1/2009.* No artigo, intitulado «Alguns pontos nos ii sobre o Acordo Ortográfico», nem se vislumbra qualquer referência aos vícios do Acordo Ortográfico de 1990 (AO 90), assinalados em pareceres técnicos e em comentários razoados, nem se manifestam as razões linguísticas que demonstram a inaptidão do AO 90 para um sistema de escrita de base alfabética, nem se atalha o facto de o AO 90 ter passado incólume ao crivo especializado e a estudos e avaliações, ao contrário do que sucede com qualquer projecto com incidência no quotidiano.

 

José Mário Costa apresenta a questão da dupla grafia, ignorando a questão central. Em nenhuma ortografia sucede a facultatividade irrestrita prescrita pelo AO 90. A dupla grafia que José Mário Costa apresenta para o inglês não se aplica às letra e forma do AO 90. Os dicionários ingleses (por exemplo, o New Oxford Dictionary of English de 1998) sublinham, para theatre, plough ou sceptic, as grafias theater, plow e skeptic, com a menção explícita "US". Em alemão, em contextos específicos, que não vou explanar, para não maçar aqui os leitores, o uso do Eszett (ß) não se aplica à Suíça, sendo esse facto explicitamente mencionado no texto do Acordo de 1996, determinando-se que na Suíça se pode escrever sempre "ss".

 

Pelo contrário, se José Mário Costa conferir o VOLP da Porto Editora, verá que carácter se grafa caráter e/ou carácter, constituindo duas grafias para o mesmo significante na mesma norma culta, ao contrário de grafias "duplas" que Malaca Casteleiro apresenta, à laia de justificação, no Preâmbulo do VOLP da Porto Editora, como arena e areia. Qualquer leigo sabe que areia e arena não são a mesma palavra, pois numa arena há areia e areia pode haver noutros locais que não numa arena. O VOLP da Porto Editora, da responsabilidade de Malaca Casteleiro (igualmente co-autor e negociador do AO 90), pretende aplicar-se exclusivamente à norma do português europeu. O desastre que se segue à aplicação do AO 90 é evidente.

 

Se acrescentarmos o facto de no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea (2001), organizado por Malaca Casteleiro, o segundo c de carácter se pronunciar, não havendo excepção a esta regra, o desastre é total. Se recordarmos que se prepara a coexistência de três Vocabulários para a norma do português europeu com o VOLP da Academia Brasileira de Letras, o desastre seria risível, não fosse real.

Erro crasso, porque prenhe de subjectividade, é o comentário de José Mário Costa: "Quem está contra o Acordo Ortográfico, este ou qualquer outro, estará até ao fim dos seus dias". Eu, autor de livro contra o AO 90, sou favorável a uma reforma ortográfica (sob forma de acordo ou sob outra forma), desde que se respeitem os princípios de uma ortografia de base alfabética e que se não limite a sua base teórica a um "critério de pronúncia" vago, errado e ambíguo.

 

Sou favorável ao Acordo Ortográfico de 1945, com críticas a opções de pormenor, mas não aos seus princípios gerais. Não sou favorável a um Acordo publicitado como "uma das medidas mais urgentes para a unificação da língua portuguesa", como afirmou Solange Parvaux, em 2004, na Fundação Calouste Gulbenkian , esquecendo que as divergências morfossintácticas e lexicais impedem tal projecto, no mínimo, megalómano. Sou favorável a uma reforma ortográfica que dignifique a minha língua e não a qualquer documento nem a qualquer processo que se baseie exclusivamente em relações de poder, em questões que envolvam "locomotivas" e "inevitabilidade", quando as razões da ortografia são linguísticas, devendo estas ser escutadas e analisadas por quem de direito e não ofuscadas por luzes que do rigor há muito se afastaram.

 

Adenda: Preparava-me para enviar este artigo, quando me deparei com a "Heterodoxia ortográfica" do professor Vital Moreira (PÚBLICO, 5/1/2010). Permito-me sublinhar cinco pomos de discórdia:

 

1 - A "confusão duradoura em matéria ortográfica" aplica-se, não à louvável iniciativa da Direcção do Público, mas a este AO 90, como acabei de demonstrar ;

 

2 - As "intensas discussões académicas e políticas" aplicam-se, não ao AO 90, mas ao seu antecessor, o AO 86. Se a existência de uma discussão legitima decisões contrárias ao resultado dessa discussão, deveremos todos rever o conceito "discussão";

 

3 - Quanto à "convergência ortográfica" e à "uniformidade fonética", recordem-se dois pontos cruciais: a) Este AO 90 promove grafias diferentes na mesma norma culta, à custa de um "critério de pronúncia", arbitrário por natureza; b) Este AO 90 promove a incoerência gráfica entre formas afins, a opacidade crescente e a ambiguidade semântica;

 

4 - A questão essencial continua a escapar a muitos espíritos, mesmo aos reconhecidos pela sua argúcia: o AO 90 é um mau instrumento linguístico, com consequências negativas para o futuro;

 

5 - Uma última nota, relativamente ao "conservadorismo ortográfico". Em qualquer Ciência, o conservadorismo deve pautar-se pela presença em termos de método, para que o objecto definido (em Linguística, por natureza, mutável) possa ser descrito com exactidão e sobre ele se possa prescrever com rigor. Não pode é a disciplina potenciar mudanças no objecto, através da perversão do método. Quando coacção se tornar homófona de coação ou sempre que se duvidar se para é verbo ou preposição, os nocivos efeitos deste AO 90 começarão a reflectir-se no quotidiano.

 

A tomada de posição por parte da Direcção do PÚBLICO é notável, pois mantém a aplicação de um instrumento ortográfico que respeita os princípios de uma escrita de base alfabética, não cedendo a outro (o AO 90), que tem muito de pseudofonético e pouco de ortográfico.

 

*4/1/2010


palavras-chave:

publicado por fmvalada às 23:36
Terça-feira, 05 de Janeiro de 2010

"Os ii do Acordo Ortográfico, ponto por ponto", PÚBLICO, 7/1/2010
"O Acordo Ortográfico, o 'excludente' e o ornitorrinco", PÚBLICO, 18/01/2010
"Um Acordo de Corda", PÚBLICO, 26/2/2010
"O Acordo Ortográfico e o Sistema Solar", PÚBLICO, 03/04/2010
"A Evanildo Bechara, gramático e filólogo", PÚBLICO, 28/6/2010
"Acordo Ortográfico: o derradeiro recurso", PÚBLICO, 22/08/2010
"O Acordo Ortográfico e o ouvido de Beethoven", PÚBLICO, 20/12/2010
"Os lemas em '-acção' e a base IV do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990", Diacrítica - Série Ciências da Linguagem, n.º 24/1, pp. 97-108. Braga: Universidade do Minho.
"O acordo ortográfico e o direito dos comboios à greve", PÚBLICO, 19/6/2011
"Pela suspensão imediata do Acordo Ortográfico Carta aberta ao Primeiro-Ministro, ao Ministro dos Negócios Estrangeiros e ao Ministro da Educação", PÚBLICO, 25/6/2011
"Enta à Presidência e singularidades de uso, PÚBLICO, 6/7/2011
"Aspectos & aspetos: a simultaneidade da discrepância, PÚBLICO, 2/8/2011
"Os bicos-de-papagaio do Acordo Ortográfico, PÚBLICO, 5/9/2011
"A anunciada revisão do Acordo Ortográfico, PÚBLICO, 24/11/2011
"21 anos, 21 bases", SOL, 17/2/2012
"Dermatologia e resistência silenciosa", PÚBLICO, 29/02/2012
“Novo Acordo Ortográfico é uma agressão enquanto leitor”, Grande Porto, 2/3/2012
“O Acordo Ortográfico é um disparate científico” , O DIABO, 6/3/2012
"Os nomes dos meses: Abril na CPLP", PÚBLICO, 30/4/2012
"A persistência do caos ortográfico: a APP", PÚBLICO, 26/6/2012
"Um pouco mais de rigor, sff", PÚBLICO, 11/8/2012
"Contra fatos: os argumentos", PÚBLICO, 13/11/2012
"O sector do Lince, a co-adopção e uma coisa insustentável", PÚBLICO, 14/7/2013
"A imaculada concessão", PÚBLICO, 19/02/2014
"Acordo Ortográfico de 1990: o regresso das falácias convenientes", PÚBLICO, 15/03/2015



publicado por fmvalada às 01:10
Conjunto de artigos sobre um instrumento político de má qualidade técnica.
ligações
ligações
ligações
pesquisar neste blogue
 
subscrever feeds
blogs SAPO