Terça-feira, 06 de Março de 2012

v. http://issuu.com/roquedias/docs/fmv_odiabo_1836_pp12_13-1/1

 

“O Acordo Ortográfico é um disparate científico” , O Diabo, 6/3/2012, pp. 12-13.

 

DUARTE BRANQUINHO

Agora que começa a entrar em casa dos portugueses, o Acordo Ortográfico (AO) está a gerar cada vez mais polémica e começa a levantar-se uma oposição crescente. Francisco Miguel Valada é intérprete de conferência em instituições comunitárias e reside em Bruxelas. Tem denunciado o AO em vários debates e artigos publicados na imprensa e é autor do livro “Demanda, Deriva, Desastre – os três dês do Acordo Ortográfico”. O DIABO entrevistou-o.

 

 

O DIABO – O que o mo­tivou a escrever um livro contra o Acordo Ortográfico (AO)?

Francisco Miguel Valada – Motivos exclusivamente lin­guísticos. O AO é um disparate científico, uma precipitação. O AO é uma teoria que não foi aceite pela comunidade cientí­fica. Acontece a muitas teorias. Mas esta teve direito a tapete vermelho. Por si só, esse motivo basta para o AO ser suspenso. A única entidade que não ma­nifestou reservas quanto à apli­cação do AO foi a Academia das Ciências de Lisboa (ACL). A ACL é o órgão consultivo do Governo em matéria linguística e foi a responsável pelo projecto AO em nome do Estado portu­guês. Agora, pense numa obra pública. Quem foi o responsável pela construção da ponte inter­nacional do Guadiana, um pro­jecto internacional? O LNEC? Não. O LNEC emite pareceres e faz estudos. A quem foi ad­judicado o projecto da ponte, ao LNEC? Claro que não. Foi a uma empresa espanhola e à Teixeira Duarte. Imagine que o Estado português decidia con­sultar diversas entidades, a Tei­xeira Duarte tecia loas à ponte e o LNEC sugeria a imediata interrupção do projecto, porque detectara problemas estruturais. Algum dos responsáveis políti­cos deste país que defendem o AO defenderia a construção da ponte? Não creio. Mas defen­dem o AO, sem perceberem os enganos do processo, sem terem lido os pareceres, enfim, muitos sem terem lido o próprio AO.

 

O seu livro teve boa re­cepção?

O livro deu o seu contri­buto na tentativa de chamar a atenção para um problema que muita gente teima em de­fender sem ler o AO. E através do livro, pelo menos, consegui que algumas pessoas que me disseram ser, em princípio, a favor do AO declarassem publi­camente a mudança de opinião. A estabilidade de uma norma ortográfica não se põe em cau­sa com argumentos falaciosos. Estas três dúvidas têm exacta­mente o mesmo valor: “como é que uma criança de 6-7 anos pode compreender que concep­ção tem pê mudo e correcção tem cê mudo?”, “como é que um jovem de 15-16 anos pode compreender que Sócrates foi mestre de Platão e que Platão foi mestre de Aristóteles?” ou “como é que um homem de 39 anos pode compreender que Borges Coutinho foi presiden­te do Benfica , João Moutinho joga no FCPorto e José Mouri­nho treina o Real Madrid?”. A resposta que os autores do AO dão à primeira dúvida posso dar eu às duas outras: “à custa de um enorme esforço de me­morização”. E qual é o valor da minha resposta? Zero. Onde está a prova da minha respos­ta? Nenhures. Qual a reacção do poder? Fuga para a frente. António Caeiro traduziu para português a Ética a Nicómaco, de Aristóteles. Quem quiser sa­ber o valor de uma fuga para a frente, encontra-o na página 86, se não me engano.

 

Acha que a questão do AO passou ao lado dos por­tugueses?

Passou evidentemente ao lado dos portugueses. A prova disso são políticos que utilizam a norma europeia do português e que estão directamente liga­dos à promoção do AO. Pedro Santana Lopes foi quem assinou o acordo ortográfico, em 1990, e em 2012 continua a achar que facto passa a fato; o cidadão Pinto Ribeiro, meses depois de deixar de andar a promover o AO na qualidade de ministro, dizia que «Ato [sic] jurídico é fácil, agora “fato” em vez de “facto”...»; Gabriela Canavi­lhas, em estreia na Assembleia da República, para além de di­zer que o debate ficara lá para trás, disse que se calhar daqui a uns anos ainda escreveria facto com cê. São um núcleo duro, o “grupo do fato”. Se o AO passou ao lado de quem o decidiu, parece-me ainda mais evidente que passou ao lado dos outros portugueses.

 

Mas parece que agora muitos estão a despertar...

Porque deixou de ser um problema teórico, uma mera possibilidade, para afectar o dia-a-dia das pessoas. Os autores do AO esqueceram-se de que a sociedade portuguesa é grafo­cêntrica. Temos palavra escrita por tudo quanto é sítio. Vera Curiel, minha colega, duran­te a apresentação que António Emiliano fez do meu livro em Lisboa, disse que a morte do AO aconteceria quando este come­çasse a ser aplicado. Nunca dese­jei que este momento chegasse, mas chegou. Esperemos que a profecia se concretize.

 

Como comenta as atitu­des de Vasco Graça Moura e de Mota Amaral?

Com uma ovação de pé. Os três deputados do PSD-Açores vão ao âmago da questão e têm toda a razão quando falam em “degradação da escrita da língua portuguesa”. Acho interessantes as reacções de determinadas pes­soas relativamente à louvável ati­tude de Vasco Graça Moura. Não ouvi essas pessoas pronunciarem-se sobre os pareceres da consulta que o Instituto Camões (sob tu­tela do MNE) levou a cabo em finais de 2005 e que estiveram a acumular bolor numa gaveta. Proponho que se pergunte aos deputados que votaram favora­velmente o 2.º Protocolo Modi­ficativo se leram esses pareceres, em que os professores Ivo Castro e Inês Duarte recomendavam que este não fosse votado e que o processo do AO fosse suspenso… Note-se que o último parecer chegou ao destino em meados de 2006 e só por iniciativa da deputada Zita Seabra é que os pa­receres foram tornados públicos, em 2008, quando o 2.º Protocolo Modificativo foi votado. Como Vasco Graça Moura leu esses pareceres, é natural que tenha feito o que fez. Outra atitude seria impensável.

 

E as recentes declarações de Francisco José Viegas?

Percebeu as consequências negativas do AO. Aliás, essa per­cepção não é inédita. O actual secretário de Estado da Cultura já tinha aludido a essa hipótese em Outubro do ano passado. As pessoas esquecem-se de que a pas­ta da Cultura está na dependência directa do primeiro-ministro e que não é o cidadão Francisco José Viegas quem está a manifestar opi­nião. Agora, o Governo, depois de demonstrar sensatez, tem de assumir rapidamente uma posi­ção, dizer quais são as alterações que tem em mente, suspender a aplicação do AO e impedir o desastre completo. Não nos pode­mos dar ao luxo de deixar arrastar este dossier. Deve evitar-se a todo o custo esta fragmentação a que actualmente assistimos. Já se viu que o AO é uma caixa de Pandora ortográfica. Logo, o dossier deve ser imediatamente encerrado.

 

O actual Governo tem vários membros que se dis­seram contra o AO, mas no entanto não o suspendeu. Porquê?

Porque foi apanhado a meio do processo, com uma Reso­lução completamente abstrusa nos braços. Contudo, deste Go­verno, a única coisa que espero é que suspenda este processo e que devolva o AO à proce­dência. Não há um único argu­mento técnico válido a favor do AO. Se me disserem que o AO é uma questão política, pergunto então por que razão se dirigiram à ACL para negociar o AO, por que motivo pediram a opinião da Associação Portuguesa de Linguística e das universidades. Telefonavam aos embaixado­res, perguntavam a opinião dos ministros e pronto. Poupavam dinheiro, não roubavam tempo precioso a quem dedica gran­de parte da vida ao estudo e o resultado seria exactamente o mesmo. As respostas dos acadé­micos foram para a gaveta, os políticos não leram nem o AO nem os pareceres e tudo ficou como dantes. Até agora.

 

Há alguma vantagem para a lusofonia com o AO?

O conceito “lusofonia” é a primeira e mais óbvia vítima de todo este processo. Já tive colegas brasileiros que me per­guntaram porque é que “nós” já não escrevemos ‘aspecto’ com cê ou ‘recepção’ com pê. Pois… Es­távamos unidos pelo “aspecto” e pela “recepção” e agora deixá­mos de estar. A única vantagem para a “lusofonia”, e se entender­mos “lusofonia” como a esfera da CPLP, é a de se perceber a falta de rigor como matérias sé­rias são tratadas. Uma decisão sensata da CPLP seria abandonar imediatamente o AO.

 

Isso explica as reservas de Angola e Moçambique?

Isso e não só. Em Moçam­bique, queixam-se de falta de clareza sobre o que se pretende com o AO e têm toda a razão. Além disso, apresentam argu­mentos económicos e fizeram a avaliação dos custos, coisa que ninguém se lembrou de fazer em Portugal. Repare: Moçambique não adoptou o AO e tem uma estimativa. Pergunte a qualquer responsável português quanto custa o AO. Não sabem, não fazem ideia. Não sou diplomata, mas quando os defensores do AO passam a vida a dizer que há um motor da língua, um centro da lusofonia, que há quase 200 milhões, esquecem-se de que Angola e Moçambique têm uma palavra a dizer. Quando num editorial do “Jornal de Angola” se diz que “nenhum país tem mais direitos ou prerrogativas só porque possui mais falantes”, acho que já percebemos que a fa­laciosa conversa dos dez milhões que não podem ter autonomia ortográfica pode convencer al­gumas almas em Portugal, mas que não convence quem tem meios para se tornar uma potên­cia de facto. Trata-se de matéria diplomática, sensível, mas que foi tratada a camartelo.

 

O que acha dos jornais, como “O Diabo”, que recu­sam o AO?

Na minha opinião, prestam um autêntico serviço público e são sensatos, ao contrário de ou­tros, que, apesar de discordarem e ainda por cima profundamente do AO, se rendem, em vez de tentarem esclarecer os leitores.


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publicado por fmvalada às 15:57
Conjunto de artigos sobre um instrumento político de má qualidade técnica.
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